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TOUT VA BIEN 1

Podemos falar com segurança em reconstrução pós-guerra, ou deveríamos antes referir-nos a esta última fase como construção de guerra?

Uma questão ainda mais provocante surge: a guerra civil acabou ou é a actividade febril de construção uma perversa manifestação do seu processo polimórfico? 2


Quando em Setembro de 1999, o navio-hotel Olympia das Nações Unidas chegou à baía de Díli, as suas amarras foram presas a duas enormes árvores existentes na marginal. Estas árvores consideradas sagradas, ou “lulic” na tradição timorense, não podiam ser o suporte de outras funções para além da que normalmente lhe é atribuída, isto é, a de ser habitáculo “lulic”. Nessa noite, duas mulheres idosas circundaram as árvores durante horas seguidas, em silêncio, para que as amarras do navio-hotel fossem retiradas. Os habitáculos “lulic” foram libertados e deste modo resolveu-se um dos primeiros incidentes diplomáticos entre os funcionários das Nações Unidas e a população timorense.

Com a ONU, a população estrangeira recém-chegada procurou imediatamente estabelecer-se. Procurou abrigo, alimentação, local de trabalho, meios de transporte, relações afectivas, e fê-lo na maioria das vezes tendo como referência as suas anteriores vivências e não as referências existentes no contexto. E a reconstrução concreta do território começou neste preciso instante, na procura de abrigo de ambas as populações.

Mas simultaneamente criaram-se dois tipos de operação. Por um lado a comunidade estrangeira extremamente activa - porque tem meios que o permitem - encontra facilmente as soluções para os constantes problemas e dificuldades que se lhes apresentam, visto que muitas vezes só o estatuto lhes possibilita o acesso aos bens, ou aos meios para os adquirir. Por outro lado, a população local vive numa fase traumática de um pós-guerra, e apesar da aparente normalidade - quase incompreensível ao pensarmos nos acontecimentos que lhes provocaram todas as perdas - não consegue reagir e estabelecer relações que não passem pela indiferença e letargia perante a realidade que a envolve.

A chegada de uma população estrangeira de características cosmopolitas e com outras referências culturais, - no caso de Timor-Leste num número superior a 10.000 pessoas - talvez seja o facto mais importante a reter, como primeira avaliação, do que pode ser a reconstrução de um território destruído pela guerra por uma força exterior formada por todas as organizações internacionais envolvidas neste tipo de operações.


1 Retirado do título do filme Tout va bien, de Jean-Pierre Gorin e Jean-Luc Godard, França 1972.
2 Khoury, Rodolphe el, The Postwar Project, Projecting Beirut, Prestel, Nova Iorque 1998, p.184.