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VIDAS MODERNAS
“ Entre os blocos habitacionais da Avenida de Dom Rodrigo da Cunha prevê-se a implantação de ajardinados com a dupla finalidade de criarem, para os habitantes dos referidos blocos, o fundo paisagístico necessário ao equilíbrio da vida moderna e também o enquadramento dos edifícios .” 1 Cinquenta anos depois de ter sido escrito este parágrafo, os jardins entre edifícios da Avenida D. Rodrigo da Cunha adquiriram a sua maturidade e a função para o qual foram desenhados. As árvores: zambujeiros, oliveiras, pinheiros mansos, alfarrobeiras, aroeiras, choupos, freixos e ulmeiros, têm agora com o seu porte adulto a possibilidade de criar sombras, de fechar ou abrir planos e continuidades visuais, de tornar estes espaços mais frescos ou mais quentes conforme a época do ano. Em 1948, o projecto para os edifícios e espaços adjacentes formulava - como primeira experiência na cidade de Lisboa - a consolidação de um espaço urbano que privilegiasse a distinção entre as áreas de circulação viária e as áreas pedonais com espaços arborizados. Tudo parecia que ia resultar. O conjunto urbano, com 20 blocos desenhados pelo arquitecto Joaquim Ferreira (1911-1966) 2 , integrado no Plano de Urbanização do “Sítio de Alvalade”, reforçava estes princípios estabelecendo hierarquias que claramente reforçavam as opções iniciais. Cada Bloco de 3 pisos continha 12 fogos, 4 fogos em cada piso, virados a nascente ou a poente, relacionando as áreas comuns de estar e dormir com as zonas ajardinadas, e as áreas de serviços com os eixos de circulação automóvel - a avenida principal e as duas ruas secundárias. As áreas sociais da casa foram pensadas como espaços de franca relação com o exterior através de varandas suspensas. Estas, para além de funcionarem como espaços de extensão das áreas dos apartamentos, viriam a ter uma função preponderante no projecto global devido à relação que estabeleciam com os jardins entre edifícios. As varandas, de áreas amplas e totalmente inusuais nas experiências anteriores efectuadas em edifícios de habitação em Lisboa, permitiam optimizar os usos da habitação, e serem consideradas eventualmente como jardins suspensos, já que estabeleciam uma relação privilegiada de continuidade com os jardins exteriores, arborizados com espécies de grande porte. O Plano de Urbanização, o Projecto de Arquitectura e o Projecto de Arquitectura Paisagista, previam um uso, quer dos edifícios, quer do espaço entre eles, a partir de uma concepção de espaço e de uma “ vivência moderna, aprazível e saudável” , 3 que de acordo com as teorias contemporâneas da Arquitectura Moderna, se julgavam ser as indicadas e utopicamente aquelas a que todos os cidadãos aspirariam. De facto, nos anos quarenta em Portugal, não tinha ainda sido permitido, devido a algumas condicionantes ideológicas, testar e pôr em prática as aspirações preconizadas pelo Movimento Moderno. Seria necessário esperar pelo virar da década para que a construção de novos conjuntos urbanos de grande escala se tornasse numa realidade, na qual as referências eram claramente os projectos estrangeiros já realizados que tinham como pressupostos os princípios da arquitectura moderna internacional. Nesse momento os novos fundamentos puderam ser postos em prática em Lisboa, passando a ser suportados pelo regime, que deste modo procurou aliar os princípios urbanistas modernos às concepções políticas de um Estado Novo. Foi então nos primeiros anos da década de cinquenta que, no Bairro de Alvalade, se construíram edifícios de habitação colectiva consolidando as primeiras experiências que de algum modo eram aquelas que, nessa época, os arquitectos e os urbanistas esperavam vir a poder desenvolver no território português, como o Bairro das Estacas (1949) de Formozinho Sanchez e Ruy Athoughia, o conjunto da Avenida E.U.A (1955) de Manuel Laginha, Pedro Cid e Vasconcelos Esteves, ou a Avenida do Brasil (1958) de Jorge Segurado. Projectado pela Câmara Municipal de Lisboa, o Bairro de Alvalade - que produz alterações significativas nos processos de planeamento até então postos em prática - surge com a necessidade de resolver algumas questões prementes na cidade, principalmente a sua escassa capacidade em albergar a crescente população recém-chegada com as vagas migratórias desde as zonas rurais do país. Assim em 1945 é desenhado o Plano de Urbanização do “Sítio de Alvalade”, pelo arquitecto Faria da Costa, na sequência do Plano Geral de Ordenamento da Cidade de Lisboa de 1938, que previa a expansão urbana para a zona a norte da cidade. O Plano tinha como objectivo a construção de vários núcleos habitacionais para 45 mil habitantes, numa área de 212 hectares, e era delimitado a norte pela actual Avenida do Brasil, a sul pela linha de caminho de ferro que cruza a Avenida de Roma, a nascente pela Avenida do Aeroporto ou Avenida Gago Coutinho e a poente pelo Campo Grande e Rua de Entrecampos. Como princípio gerador havia também a finalidade de criar um bairro onde coexistissem diferentes tipologias de modo a que a fixação de população abrangesse os vários níveis económicos dos agregados familiares: casas de renda livre, casas de renda limitada e casas de renda económica. Na área de implantação de 212 hectares abrangidos pelo Plano foram definidas oito grandes células habitacionais seccionadas entre si por alguns dos eixos viários principais: a Avenida Estados Unidos da América, a Avenida de Roma e a Avenida da Igreja. Assim, enquanto que nos principais eixos viários do bairro seriam projectados núcleos urbanos constituídos por edifícios em altura, construídos por privados e depois ocupados pela burguesia em regime de renda livre, o interior desses núcleos é ocupado por edifícios de habitação de três a quatro pisos, com renda económica e principalmente destinados ao realojamento de população. Numa das células habitacionais mais a poente do Plano surge o conjunto urbano projectado para a Avenida D. Rodrigo da Cunha, com edifícios de renda limitada, que foi considerado como uma experiência piloto das propostas que lhe sucederam nos anos seguintes elaboradas por diversos autores, entre os quais os atrás mencionados, tanto ao nível do projecto de arquitectura, como do projecto de arquitectura paisagista. Os edifícios isolados em blocos perpendiculares aos eixos de circulação, diluíam de um modo marcante e inovador a definição tradicional rua, passando hierarquicamente a dar mais importância ao espaço de logradouro entre os blocos, a partir do qual se processavam as entradas para os edifícios. Deste modo surge, como experiência percursora e de viragem no contexto da arquitectura paisagista portuguesa, uma nova tipologia de espaço exterior, que depois foi repetida, também com projectos de Gonçalo Ribeiro Teles, no Bairro das Estacas, na Avenida E.U.A e também na Avenida Infante Santo. Não eram mais espaços ajardinados entre as fachadas principais dos edifícios e a rua, nem espaços de logradouro nas traseiras para uso privado, mas jardins que simultaneamente passavam a ser espaços principais de estadia de uso misto, público e quase privado, relacionados com os eixos de circulação rodoviária mas protegidos no seu recuo em relação a estes. No caso da Avenida D. Rodrigo da Cunha, a sua repetição em ambos os lados da Avenida, e ao longo de praticamente toda a sua extensão, promovia também conceptualmente um dos princípios urbanísticos modernos: a possibilidade de criar um todo através da sucessão e marcação de unidades idênticas e repetidas. Mais do que a definição de 18 jardins individualizados entre 20 blocos, foi definida uma unidade. Consolidaram-se os princípios de actuação que se delinearam num terreno contínuo, onde sucessivamente se estabeleceram limites, se traçou uma avenida que o seccionou em dois e se implantaram 20 blocos habitacionais de média dimensão. Posteriormente pretendeu-se que a arquitectura paisagista restabelecesse aquilo que os eixos viários e os edifícios de habitação tinham comprometido. A continuidade e permeabilidade do sistema, ao nível de atravessamentos transversais entre ambos os lados da avenida e ao longo de toda a sua extensão. “ Procurou-se também que as espécies se distribuíssem, num plano conjunto, de harmonia com as indicações que os restos da flora existente no sítio e redondezas nos indicaram. Atendeu-se também às condições topográficas.” 4 A plantação de espécies arbóreas e arbustivas reflectia esta continuidade e a uma leitura ecológica dos sistemas naturais existentes. Ao longo da linha de vale marcada pelo novo traçado da Avenida plantaram-se choupos e freixos, espécies associadas a zonas húmidas, e nas encostas plantaram-se espécies associadas a zonas secas, tais como pinheiros mansos, oliveiras e zambujeiros. As condições principais definidas pelo projecto de Gonçalo Ribeiro Teles, foram e são actualmente visíveis no conjunto habitacional da Avenida D. Rodrigo da Cunha, os jardins reforçam os atravessamentos transversais da avenida, quer ao nível de circulação pedonal como de vistas, induzem de uma forma clara às entradas principais dos edifícios, consolidam áreas de estadia. Tudo parece pronto a funcionar e a criar as valências procuradas desde o início do projecto, tais como a procura de uma vivência moderna, aprazível e saudável. Durante as cinco décadas de transformação destes espaços públicos, que acompanharam a evolução e a vivência dos edifícios e da própria cidade, houve momentos em que os jardins terão sido utilizados pela população local. Diferentes factores, entre os quais o surgimento de uma população jovem, contribuíram para que os espaços entre edifícios pudessem ser utilizados, conferindo-lhes temporariamente os usos para o qual estavam destinados. No entanto ao contrário do que deverá ter sucedido no início de vida no bairro, agora passados cinquenta anos, perante a fase de maturidade do tecido arbóreo a população envelheceu, alterou-se em cadências aleatórias provocando uma diferença considerável no uso dos espaços exteriores. O bairro em questão, vive actualmente num ciclo, ou num fim de ciclo, no qual não existe praticamente uma relação directa da população com o espaço exterior. Apesar de uma parte considerável das plantações iniciais, principalmente ao nível do estrato arbustivo, ter desaparecido, devido a alguma incúria na sua manutenção, os jardins mantêm na sua essência o carácter que a sua concepção idealizou. Os relvados contínuos, as árvores de grande porte, os caminhos que produzem os acessos aos edifícios, uma informalidade e naturalidade que induz a uma ocupação espontânea e casual. Mas de algum modo, e contrariamente àquilo que seria de prever, existe um alheamento da generalidade dos habitantes do conjunto urbano da Avenida D. Rodrigo da Cunha em relação aos espaços verdes construídos, mesmo tendo os projectos sido na época considerados pioneiros e partido do desejo de trazer claras vantagens às vidas urbanas dos cidadãos em questão. Aparentemente quem não gostaria de ter e usar um jardim de 1.200 m2 (24 m x 46 m) em frente a casa? Ou quem não gostaria de ter uma varanda de 8 m2 suspensa sobre uma copa de uma árvore já adulta do mesmo jardim? Digamos que existem pressupostos que neste caso são necessários avaliar, criticar e repensar, como de facto as disciplinas envolvidas neste processo de construção nunca o deixarão de fazer. Mas será importante compreender porque é que, tendo os jardins atingido neste momento a sua maturidade, estes não são usados pelas pessoas em questão. Será também necessário questionar outro facto, que pode indiciar algumas leituras, que é razão pela qual a grande maioria das varandas suspensas sobre os jardins terem sido fechadas, aumentando ainda mais o distanciamento entre o espaço interior das habitações e o espaço exterior ajardinado. Em que é que os projectos, tanto o de planeamento, como o de arquitectura e de arquitectura paisagista falharam? Existe uma incapacidade dos cidadãos interagirem com os espaços ajardinadas fronteiros aos edifícios, e de algum modo se identificarem com eles e por eles exercerem um direito que lhes assiste, que é tornar seu o espaço público. Esta possibilidade existe, e onde poderia haver uma atitude de manter e preservar os espaços que pertencem à cidadania, pelo contrário verifica-se uma incapacidade de tornar o que é público como parte integrante de uma vida privada, sem a necessidade de murar, privatizar. Porque é que tendo a arquitectura e a arquitectura paisagista, definido princípios de acção que, de acordo com tudo o que se poderia prever, pareciam correctos, estes não se verificaram? Neste caso parece difícil que a arquitectura e arquitectura paisagistas tenham falhado na sua complementaridade e propósitos. Existe a possibilidade de as pessoas, elas próprias, terem falhado? Ou foi a vida moderna uma utopia? O jardim é um espaço sempre em constante transformação. Tal como cada sociedade vai construindo a sua noção de utopia, também procura construir os jardins ao alcance dos seus desejos. ” Todo o projecto com material vivo está em permanente transformação. Está em transformação ao longo do ano porque existem as várias estações, mas está também em transformação porque as árvores crescem e morrem, a vida desenvolve-se. A própria vida se transforma.” 5
Lisboa, Setembro 2002 Texto escrito para catálogo de exposição sobre Gonçalo Ribeiro Telles inaugurada no Museu de Évora em Fevereiro de 2003
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